07
DEZ
2019

Juventude politizada: Egressa do PPGE desenvolve projeto na educação básica

Tirando a Língua Portuguesa da tradicionalidade, Maria Alice, professora da Escola Estadual Maria de Lourdes de Oliveira conta quais foram as suas inspirações para colocar memes em suas aulas.

Como é a escola Maria de Lourdes?

Um lugar onde jovens com opiniões totalmente opostas são amigos e se complementam. Os alunos da Maria de Lourdes deixam seus posicionamentos muito claros e gostam de discutir, tudo com muito respeito e parceria. A forma com que eles se comunicam mostra seus sonhos e sua trajetória para chegar até eles. Mas um dos grandes motivadores dessas histórias é a professora Maria Alice Souza.

Uma criadora, uma amiga, uma faz-tudo, uma professora acima de tudo. Em Belo Horizonte, Maria Alice conta que construiu sua sequência didática atual em Língua Portuguesa pensando em uma forma de conteúdo que pudesse cativar mais os alunos e trazer riqueza para a sua matéria. Nesse contexto, para mostrar um pouco da intertextualidade e das figuras de linguagem, que são conteúdos de base na língua, ela resolveu colocar os memes na história.

Esses memes vieram como objeto de estudo em suas aulas e inspiraram alguns alunos a pesquisar e entender quais eram os assuntos que eles mais se interessavam. As reações foram muito loucas, a professora conta que todas as salas se surpreenderam com o projeto, mostrando empolgação, coisa que era muito difícil com uma matéria tão quadrada e tradicional. Mas além disso, uma criação dos próprios jovens estava sendo colocada como protagonista e manifestação cultural em sala de aula. Isso criou um impacto.

Maria Alice ressalta que os alunos sempre tiveram posicionamentos fortes e discussões acaloradas, principalmente próximo às eleições de 2018. Além disso, as novas tecnologias, mais especificamente as redes sociais, estavam causando nas aulas, tirando a atenção dos alunos e pautando as principais rodas de conversa. Isso fez com que ela tivesse um estalo. Percebeu aquelas tecnologias como aliadas para o momento e refletiu que alguns movimentos culturais construídos a partir da nova era digital seriam interessantes para trazer em aula.

As limitações estruturais da escola foram um ponto muito mencionado pelo pessoal da Maria de Lourdes, tanto pelos professores quanto pelos alunos. Uma única sala de vídeo é dividida com toda a escola, isso é um dos pontos que diminui a recorrência de trabalhos que envolvam tecnologia. Maria Alice diz que mesmo dessa forma, os alunos usam seus celulares nos trabalhos, e isso facilita algumas ideias que ela quer promover, mas que realmente, a limitação tira algumas iniciativas de questão.

Todos os alunos mencionam defasagem na estrutura básica da escola, Amanda Machado, aluna do 1° ano do ensino médio, mostra sua indignação com esses pontos, citando por exemplo a falta de papel higiênico, que incomoda e atrapalha a rotina dos alunos. Isso se repete em todas as falas e marca muito a característica sonhadora dos alunos, que nas conversas informais mostram suas vontades.

Mesmo sonhando e se imaginando fora do bairro em que vivem, os alunos ainda mantém uma tradição de permanecer no mesmo lugar. Mas, Maria Alice conta que em suas aulas ela tenta incentivar cada um a buscar novas experiências, saindo da tradicionalidade que prevalece, saindo das “Três Marias: das escola Maria de Lourdes, do bairro Maria Gorete e das aulas da Maria Alice” como disse a professora.

Os professores brincam muito com a transdisciplinaridade na escola, as matérias se cruzam e geram trabalhos com parcerias. Isso acaba incentivando os alunos e ajuda os professores com ideias paralelas, que expandem o significado de seus projetos com mais abordagens. Por isso, quando Maria Alice resolveu aplicar memes em sala de aula, os professores contam que acompanharam seu trabalho e apoiaram na realização. Além de se inspirarem também para projetar novos trabalhos em suas próprias disciplinas.

A inimizade com as tecnologias e redes sociais por parte de alguns professores acontece por conta do potencial de distração que elas têm em sala de aula. Mas, apesar disso, na Maria de Lourdes eles tentam explorar ao máximo discussões que promovam reflexão sobre o uso dessas redes. Outro ponto que os alunos trazem como importante na escola é afeto e a compreensão na sala de aula. Os alunos valorizam muito a relação próxima e de atenção com os professores e por isso sempre citam o professor de física, Pedro Gallo, por exemplo, que é descrito como ouvinte de todos e ensina física com um olhar mais humano, olhando a dificuldade e trajetória de cada aluno.

O professor de sociologia, Alexandro Gomes, citado muitas vezes como parcial, conta que a sua matéria tem um conteúdo complicado de ser passado em sala de aula. Que muitas vezes os alunos entendem os tópicos como discurso pessoal do professor, mas que na verdade, são provocações para que os alunos reflitam e desenvolvam sua opinião própria com consciência. Os professores também tem o intuito de criar projetos diferentões como os de Maria Alice, mas muitas vezes são impedidos pela limitação de recursos tecnológicos que a escola possui, e acabam dependendo da boa vontade dos alunos de utilizar o celular para realizar os trabalhos.

A educação ideal, citada em todas as falas, caminhou pela ideia da igualdade de oportunidades, da liberdade de expressão, da possibilidade de sonhar. O futuro da Maria de Lourdes se coloca como apoiador da inovação, mesmo com os poucos recursos. Isso não quer dizer que seja da melhor forma possível, mas da melhor forma que eles podem realizar.

Por fim, sentimos muito pela internet não ser tão permissiva quanto a gente achou que ela fosse. Criou um tal de algoritmo que mata qualquer conteúdo que deixe de cumprir algumas regras. Assim, não podemos publicar vídeos de 2 horas como foram as discussões que tivemos com os alunos e professores. Bom, azar dela, só quem viveu sabe. A versão estendida desse trabalho, vocês acompanham em Cannes.

* Notícia retirada do site: memensina.com.br/juventudepolitizada

* Acesse os vídeos da entrevista clicando aqui.